Submissão e Liberdade, da Abstinência à Eutanásia

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“Você pode viver com dignidade, mas não pode morrer com ela” nas palavras do fictício Dr. House. Porque nas palavras do factual Michel de Montaigne, “A morte é de facto o fim”

Tenho em relação à Eutanásia o receio que a homossexualidade inspirava ao avô homofóbico de um amigo do popular romancista Hugo Gonçalves: “Já foi proibido, já foi permitido e ainda há-de ser obrigatório”. Opositores à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo eram troçados por argumentarem como a alteração legislativa incentivaria à homossexualidade. Certamente ninguém permutou a sua orientação em função dum despacho governativo mas na batalha demográfica – aquela de que nos olvidamos quando viabilizamos a entrada indiscriminada de emigrantes férteis no Ocidente – observaremos como a percentagem de homossexuais entre as camadas mais jovens disparou nestes anos em resposta à escandalosa propagação do homo-erotismo, promovido antes de mais pelo poder político. Não tenho dúvidas de que o crescimento em número dos colectivos afim (cada vez mais abastados, dinâmicos e com um peso escandaloso na comunicação socia) cresceu graças à penetração nas camadas jovens. E ainda que se possa discutir a perversão de incentivar os mais influenciáveis a uma escolha dificilmente sua, os dois exemplos análogos possuem uma diferença abissal: é que da morte não há retorno.

A obra “O Mapa e o Território” – vencedor do prémio Goncourt em 2010 – fez-me, numa questão qual julgava remeter-se exclusivamente ao âmbito da liberdade individual, mudar radicalmente de opinião. No livro, o Pai do protagonista sente-se continuamente pressionado a optar por este suicídio – homicídio? – limpo, asséptico, indolor, “digno”, cedendo por fim a fazê-lo numa clínica Suíça. Também o Pai de um engenheiro com quem me cruzei se suicidou aos 70 anos, deixando em carta aos filhos a declaração “não compreender o mundo em que vivia”. Receio que a legalização da eutanásia tornará este fenómeno corriqueiro.

Para além do salto tecnológico e das transformações sociais terem tornado o mundo num local mais inóspido para os menos jovens, sofrem com a obsessão que a cultura popular devota à Juventude. Na obra “Youth” do argumentista Paolo Sorrentino, o lendário realizador “Mick” apercebendo-se da sua obsolescência, lança-se da janela incapaz de aceitação ou da adaptação à velhice. Essa obsessão, propalada por uma geração de políticos exclusivamente provenientes das jotas (como o fora pelos seus antecessores e padrinhos políticos, filhos do Maio de ’68), restringiu o debate público às suas ditas causas sobre-representadas na imprensa e no debate público, alheando os mais velhos mesmo que sejam os mais velhos quem mais depende da Política – de um serviço funcional de saúde ou de um fundo nacional de pensões. Assim, não é o conservadorismo que os aparta da legalização do IVG, mas a incapacidade etária de procriar. Não é a homofobia que aliena o eleitorado sénior da extensão aos direitos matrimoniais, é o perceptível desinteresse pelas temáticas do baixo ventre. Não é a relação moralizante com o prazer que os inibe à aceitação do consumo de estupefacientes, é o respeito que um corpo mais gasto convoca, o suficiente para recusarem degradá-lo voluntariamente .

A confissão que recentemente uma jovem socialista me fez quanto às dificuldades das lutas da organização advirem do envelhecimento da população Portuguesa (note-se que exceptuando o risível desconto para jovens em museus, esta organização não produz conteúdo fora do trâmite das “fracturantes” há quase uma década), fica demarcado, à semelhança do sucedido na revolução cultural chinesa, o inimigo figadal da JS – A idade!

A gerontofobia desta frente (que não se esgota à Esquerda como o revelou o episódio da“Peste Grisalha”) vai ao ponto de, no rescaldo do Brexit, ser solicitada a inclusão de uma idade máxima de voto porque, os cidadãos seniores, deviam estar desprovidos de direitos eleitorais. E ainda há relativamente pouco tempo o jornalista Rui Tavares exigiu mais jovens nas redacções. Ou seja, menos idosos.

Mas o distrate que o Francisco Rodrigues dos Santos recebeu da imprensa com uma proposta inócua, ou por outra, sensata, pôs a nu um critério de anuência que não se esgota na idade. Não somos livres de optar pela abstinência, uma escolha que – às palavras da deputada Isabel Moreira – “pode matar”. Religiões bem aceites pela esquerda folclórica como o Budismo (que é de Esquerda) ou o Islamismo (que não é) pregam a abstinência e a figura de Staline que, segundo Marcelo Duarte Mathias, nutria uma curiosidade académica pela prostituição londrina pois crescera imbuído pela moralidade Georgiana cuja tradição casta perdura aos dias de hoje, é retratada pelo historiador Martin Amis como púdica e assexuada. A única consistência desta trupe é a dissonância cognitiva. E o ódio aos velhos.

Sendo infinitos os perigos da legalização da Eutanásia, sobretudo na era da automação computorizada (quantos acabarão eutanaziados por erro informático?) e não consistir necessariamente num suicídio mas sim num homicídio legalizado como bem assinalou o Victor Cunha, existe na retaguarda desta opção, o estabelecimento de uma cultura de morte. Com antecedentes no folclore nórdico, na Alemanha 800 AC. Na ilha de grega de Keos, a população referendou democraticamente o assassinato de todos os ilhéus com mais de 60 anos através da ingestão de cicuta. A história parece condenada a repetir-se.

Os eugenistas do século XX de igual modo assumiram uma cultura de morte. O aborto na Alemanha Nazi era legal até às 13 semanas e apenas interditado caso o Schwangerschaftskonfliktberatung  (Comité da gravidez indesejada) aferi-se tratar-se de uma criança saudável, isenta de malefícios para a parturiente e, claro, ariana – todos os demais eram encorajados. O decreto Aktion T4 (curiosamente redigido por Adolf Hitler no mesmo dia em que a Alemanha invadiu a Polónia) previa a morte misericordiosa de todos aqueles quem fossem considerados pelas autoridades médicas competentes como incuráveis. Interessante ainda que uma boa parte dos quase 71 mil assassinados pelo programa até Agosto de ’41 (com tecnologia depois replicada para o holocausto), tenham provindo de abrigos geridos pela igreja Católica. Tal como a palavra “vida” se revelou sujeita a várias interpretações também a palavra misericórdia

Para quem tenta datar os temas atente no premonitório Extension du Domaine de La Lutte: uma enfermeira toma a decisão de eliminar uma paciente considerada a urgência de vagar cama e a ausência de familiares, copiando uma prática contemporânea da Índia subdesenvolvida. Pouco falta para que as escolas de medicina e a ordem dos médicos eliminem o juramento de Hipócrates.

Mas mesmo longe das 5000 crianças exterminadas pelo programa Nazi porque “Os recém-nascidos alemães devem provocar um aumento do poder da nação e não enfraquecê-lo” segundo Hitler num discurso em Nuremberga, o protocolo holandês de Groningen – o conjunto de directivas que viabiliza, desde 2004, que uma criança possa ser assassinada até aos 12 anos com consentimento parental – oferece tenebrosos paralelismos. Por essa mesma razão o governo francês interditou a campanha“Dear Future Mom” por supremo respeito às mães que abortaram crianças deficientes eugenicamente erradicadas – falta apenas atribuir-lhes a Ehrenkreuz der Deutschen Mutter.

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Na Bélgica, um adolescente de 17 anos foi morto em 2016 pelas autoridades que prometeram cuidá-lo. Uma rapariga de 14 anos, submeteu-se ao procedimento, não sem antes se organizar uma grande festa pela celebração da sua partida. Retorno ao exemplo inicial e pergunto-me, como me perguntei face aos homossexuais que desabrocharam num mundo pós-legalização do casamento, se todas estas pessoas – na ausência da possibilidade de recorrerem à eutanásia – investiriam, per si, tantos esforços na morte.

Não valia mais a pena investir na vida?