A Hipergamia Mata (II)

“A história de toda sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de ofício e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos se encontraram sempre em constante oposição, travando uma luta sem trégua, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre através de uma transformação revolucionária de toda a sociedade” – Karl Marx e Friedrich Engels, O Manifesto do Partido Comunista

 “A rebelião dos celibatários involuntários já começou” (The InCel Rebellion has already begun!). Foi com estas palavras que o Canadiano Alek Minassian se despediu das redes sociais, antes de assassinar 9 pessoas e ferir algumas dezenas. Isto aconteceu na 3ª cidade do mundo mais adequada para acolher LGBT’s , capital do sétimo melhor país onde residir uma feminista, o país onde a elevada regulação do porte de arma devia manter a população segura, e a elevada incidência do estado social deveria manter as franjas desacreditadas, satisfeitas

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23º Governo Canadiano de sua majestade (Her Majesty’s Government)

Eliot Rodgers, a quem o assassino se referiu como “irmão”, era Americano. Mas provinha da Califórnia, considerado o quarto Estado mais liberal dos USA, menor incidência de armas e maior incidência de impostos . Vale a pena mencionar que, como o congénere yankee, Alek não era especialmente mal parecido, com o seu queixo definido, nariz direito, malares proeminentes e olhos grandes. Ainda assim se queixava de insucesso nos jogos de conquista, demonstrando como o fenómeno InCel é um problema societário e factual, em vez de individual e psíquico.

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Minassian, o segundo em cima a contar da esquerda, não era mal parecido

Na China e na Índia, o celibato involuntário foi gerado pela demografia. A política de planeamento familiar inaugurada por Hua Guofeng e prosseguida por Deng Xiaoping gerou, geração mais tarde, 70 milhões de ínubos. 7 x 107 machos quem, segundo as previsões das autoridades locais, serão incapazes de emparelhar, não obstante as práticas de casamentos combinados ou entrega de dotes pré-matrimoniais. Solução? Importar mulheres de países menos bem-sucedidos (como o Camboja ou o Vietnam) ou enfrentar a obliteração genética. No médio Oriente, a poligamia permitida e promovida pelo Islão também condenou muitos homens ao isolamento em vida. Mas a sociedade teocêntrica que gerou o problema também lhes oferece uma solução – devotar a vida ao todo-poderoso ou entregar-lha em nome da guerra santa.

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Ao Ocidente a maleita, tardia e artificial, lá chegou. Não pela falta de direitos ou autonomia das mulheres, mas pelo excesso. Não em 2018, mas em 1989. Não na conservadora América, na economicista Alemanha, na ultramontana Inglaterra, mas no libertino Canadá. Acossado pelo feminismo e decidido a cambiar o seu destino, Marc Lépine – filho da globalização entre um Argelino e uma Enfermeira Québécoise – assassinou 14 mulheres no chamado “massacre de Montreal” por querer “combater o feminismo”. O mesmo aconteceu com o terrorista Andrew Berwick, na superigualitária Noruega, em 2011.

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Os últimos anos foram marcados por ocorrências sobrenaturais: camiões revessando-se sobre a população, expansão de doenças psicológicas e, claro, desintegração por falta de meios socioeconómicos. Frequentemente, os especialistas em odiar brancos (Lépine não o era, mas vamos ignorar isso), branqueiam atentados brutais com a terminologia supracitada, mesmo que estejam implícitos mais assassínios do que os cometidos por Berwick ou Rodgers. Mas quando um tipo massacra em nome da Jihad, eu considero um desrespeito para com ele próprio (e já agora, para com as vítimas) que não escutemos os seus intuitos. Há inúmeros paralelismos entre as duas classes de morticínios e pretendo explorá-los detalhadamente. Por isso vou ouvi-los. Vou escutar o que os facínoras têm para dizer. Enquanto se enumeram as causas fictícias por detrás do ímpeto homicida do Canadiano, eu acho que vale a pena atentar nas suas palavras, ou não fossem o acto terrorista – como todos os actos terroristas –  uma manobra promocional nos dias do ego.


Jude Appatow lançou em 2005 o filme Virgem aos quarenta anos. A wikipedia descreve o protagonista do filme como “um virgem de 40 anos de idade, que é involuntariamente celibatário. Ele mora sozinho, recolhe figuras de acção, joga jogos de vídeo, e sua vida social parece consistir em assistir Survivor com seus vizinhos idosos. Ele trabalha no estoque em uma loja de electrónicos chamada SmartTech

Não só este perfil é factual como se tornou mais frequente após 13 anos de acossa feminista , e se estendeu além das fronteiras do tenebroso mundo Ocidental. Simultaneamente, e mesmo sem ver o filme ou qualquer descritivo seu, sabe o leitor e por automatismo que alguém virgem aos 40 anos é necessariamente um homem, que se pode chamar Carrell (o personagem da película) ou Alek ou Elliot.

É este o queixume dos homicidas. E é um problema válido. Apesar de condenarmos severamente a sua atitude perante o mesmo, identificamos-lo e reconhecemos-lo. Não se trata meramente de não ter sexo ou não procriar, ou quedar-se condenado a uma vida de solidão. Recentemente, num casamento Católico escutei duas frases que me marcaram: “Deus criou a mulher para fazer companhia ao homem” e “Enquanto prova do Amor de Deus, o Casamento é um projecto de felicidade”. Estes homens estão condenados a desconhecer a companhia, o Amor de Deus e a Felicidade.

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Expectativa de vida de um InCel

Mas é também sobre o preconceito de que os homens solitários sofrem no Ocidente, seja no trabalho, seja na vida cívica , seja na vida social. Se não nos fizermos acompanhar por uma fêmea, somos vistos como perigosos. Somos concordantemente discriminados – Por outras mulheres! pois à excepção dos SJW, os homens com sucesso vaginal são tão solidários para com estes pobres coitados que se aglomeram em fóruns oficiosos para lhes ensinar como levar uma vida melhor. Quando este preconceito verter em perseguições, prisões, despedimentos massivos? É tão mau que há gajos que escolhem deixar de o ser para fugirem ao preconceito

I'm not sure if I should be offended or happy since then we could get free neetbux

Validando estes problemas, muitos buscam soluções e o Pick-up deixou de ser uma subcultura estigmatizada para ser legitimado como instrumento valioso à sobrevivência no Ocidente. O autor Roosh V escreveu que se Eliot Rodgers houvesse aprendido PUA, nunca teria cometido nenhum massacre, e até o reputado psicólogo Jordan Peterson admite a importância da sedução, explicando-a brilhantemente com base no filme “O Rei Leão”.

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Segundo o também académico, na narrativa, Simba desilude a parceira ao recusar aceitar responsabilidades que o transitem para a vida adulta, e só depois de realizar essa transição (tornar-se adulto, assumindo responsabilidades) passa a poder usufruir dos direitos correspondentes como a intimidade, o sexo e a chave para a parentalidade. Fica dado o recado de que os PUA’s devem amadurecer, antes de almejarem seduzir mulheres.

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InCel: Individuo que apenas encontrou este olhar na tela do cinema

Mas perante uma trupe de jovens que estariam dispostos a governar as Terras do Orgulho ou a defrontar o malvado Scar só para poderem ver pachacha, Peterson forçou-me a rever o filme. Vendo-o, apercebi-me de que esta sequência de acontecimentos está enviesada. Na verdade, a fêmea já seduzira o príncipe antes deste realizar a dita transição. Na verdade, ela tomara iniciativa nesse ritual sem lhe colocar contrapartidas*. Na verdade, o seu envolvimento data de quando Simba se recusa terminantemente a crescer e a maturação pessoal do leão não é condição sine qua non para este acontecer.

Se outro personagem assumisse o pesado ónus que o jovial Simba recusou, se outro interveniente cumprisse a condição posteriormente colocada a Simba, jamais com essa coragem – por esse cumprimento – conquistaria o coração e o corpo da leoa.

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“Se nós aceitarmos governar esta merda, podemos montar a gaja?”

Rodgers e Alek pensaram como Peterson. Eles acreditaram que as suas virtudes pessoais lhes trariam a companhia almejada. Eles creiam mais cedo ou provavelmente mais tarde que o dinheiro e classe social de Rodgers ou a humildade e capacidade de trabalho de Alek, compensariam sob a forma desejada, sob a forma de uma vagina molhada. Mas como later never comes, aperceberam-se de que foram logrados desde o primeiro dia das suas vidas quanto aos mecanismos que estabelecem atracção e uma mulher por um homem. A atracção não é uma escolha.

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A face da desilusão

Assim, não pode ser merecida, conquistada ou transacionada. O sexo pode e as relações resumidas a quartos mortos ou a sessões mensais de posição missionário com choro e rata seca, demonstram que uma mulher pode foder até para que o homem deixe o lixo no contentor**. Naturalmente, é dessa possibilidade que nasce a prostituta.

Este conceito, todavia, também se cola aos PUA’s e Redpillers que propagam o seu game pelo espaço cibernético. Obedecendo a uma filosofia platónica, semelhante à que moveu os InCels, os gurus instruem os seus aprendizes a decorar este número de linhas ou a adquirir esta forma física, dizendo-lhes que a recompensa virá mais tarde. Na sua linguagem, o dinheiro de Rodgers e o labor de Alek traduzem-se em horas de treino ou sessões de sarge e eu pergunto-me quantos contarão, com a mesma ansiedade, o número de abdominais ou as repetições do bench-press; Quantos enumerarão, com o mesmo desespero, o número de abordagens ou os timingos de Hook-Point, necessários para merecer chavoita, interiorizando – em ambos os casos – que se lhes deve ser exigido sacrifícios para obter aquilo que as mulheres conseguem sem esforço.

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“Quantas faltam para foder?”

Alguns InCels advogam que o auto-desenvolvimento é um mito. No limiar, impelir alguém a “apostar em si mesmo” ou investir numa carreira ou num ganha pão ou num qualquer tipo de prestígio, é pedir-lhe que espere até aos 40 ou 50 anos para poder ter direito a rata (falta saber durante quanto tempo). É claro que depois estão confinados a congéneres hediondas, gastas, gastadeiras e mal-agradecidas porque se dormirem com alguém mais novo, podem aguardar por uma torrente de impropérios e acusações legais. Por outro lado, Houellebecq escreveu que a vida sexual dos homens se divide entre o período das suas vidas em que não aguentam suficiente tempo para satisfazer uma mulher, e o período das suas vidas em que não possuem pujança suficiente para o fazer. Aqueles que esperam sucesso e fortuna para copular, podem contar com a segunda.

Diz o povo que “quem espera desespera”. Para alguns, efectivamente a vida melhora. Para Alek e Eliot não. Perceberam que depois do liceu, da faculdade, da idade, não chegou o momento das suas vidas em que finalmente se tornavam atraentes. Nunca chegaria. Nunca estariam vivos. Por isso, mataram.

É para Esperar? Pelo quê?

Sem regulação apertada e redistribuctiva, a intimidade – tal como a atenção – converte-se num bem escasso. Uma sociedade que mede os cidadãos pela quantidade de intimidade obtida é tão desigual como a que mede o homem pela nobreza de sangue ou pela quantidade de dinheiro. Não  se fizeram esforços eficientes para democratizar a carne; Pelo contrário, a sua liberalização aumentou a disparidade social, a segmentação de classes, a diferença entre os que têm muito e os que não têm nada.

Esses são os InCels.

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Os InCels estão no fundo da cadeia alimentar e sem cona

 

No meu texto anterior, dei o exemplo de 1789 para explicar o sentimento revoltoso entre os despojados do mercado sexual liberal – os famintos do alimento humano. O brilhante Roosh escreveu-o o melhor: “‘Deixa-os comer bolo’ é hoje ‘Deixa que estes falhados privilegiados e socialmente estranhos tenham XBox e pornhub”. No ano de todas as revoluções – 1848 –  a liberalizarão industrial retiraria poder de compra ao proletariado enquanto aumentava a sua dimensão e reduzia os direitos laborais. Também a emigração era problemática, com os orientais a capturar os postos de trabalho como hoje os pretos capturam fanfa. As más colheitas dos anos transactos e a imobilidade da propriedade da terra, ditariam a virga-férrea reivindicativa; Simultaneamente, a imprensa escrita e a sua disseminação rural promoveria a união entre proletários apartados. Foi sobre esse solo fértil, fervilhante e preconizando ruptura eminente que dois ensaístas germânicos, munidos de extensos conhecimentos sobre economia e filosofia, lançariam as sementes revolucionárias cujos frutos seriam pois lavrados a foice e martelo. Postulando a teoria Marxista, Karl e Friederich Engels mudariam o curso da história através da publicação de Das Kommunistische Manifest. Estava fundado o Comunismo.

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A disparidade numérica foi essencial ao sucesso da Revolução. A base da pirâmide na França do século XVIII ou na Alemanha do século XIX é mais larga do que o topo. Obedecendo o mercado sexual às regras de pareto, serão os InCels suficientes para inverter a pirâmide sexual? Poderão eles – com o 4chan no lugar do Rheinische Zeitung – revolucionar o mercado?

Ou resultarão tão mal como o já mencionado terrorismo islâmico, desorganizado, despropositado, apertando o controlo e hostilidade sobre a população do praticante, incapaz de satisfazer qualquer necessidade dos necessitados?

E há a sucessão cronológica. A segunda república francesa foi naturalmente fruto da primeira, inspirada no espaço de duas gerações, pela revolução antecedente mas com o terror cuidadosamente omisso dos relatos oficiais. Duas gerações posteriormente, viria a Revolução de Inverno, marcando a história da libertação dos povos como uma sequência de revoluções. Com a popularização da expressão “Going ER” (Indo ER – Elliot Rodgers) na darkweb qual revolução sucederá ao atropelamento de Toronto? Será mesmo apenas uma questão de tempo até alguém voltar a matar?

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A expressão “Going ER” popularizou-se na darkweb

Antes de terminar vale a pena recordar que a palavra InCel é um acrónimo involuntário. Enquanto os demais grupos mencionados são integrados por ventureiros conscientes, o estatuto InCel não é auto-determinado mas exógeno. Assim, não prevê uma conversão religiosa como no activismo islâmico, ou uma adesão militante como num Partido Político ou o treino paramilitar como nas organizações terroristas. Os outros membros da manosphere são definidos pela actividade: os RedPillers que escolhem tomar a RedPill, os PUA’s que escolhem sarjar, os MRA’s que escolhem o activismo, os MGTOW que escolhem ir no seu caminho. Os InCels não têm escolha. No limiar, um jovem bluepiller, tímido, feminista que não faça sexo é, passivamente, definido como InCel. Não quis ser InCel. Ninguém quer ser InCel.

Também se escreveu que os InCels são misóginos. Não podia estar mais longe da verdade. Os InCels são adoradores de mulheres que não vêm os seus sentimentos adequadamente respondidos. Se fossem misóginos seriam MGTOW, optariam pela prostituição ou pela homossexualidade. Um homossexual com quem fiz amizade recente confessou-mo numa madrugada alcolizada que enrabava outros tipos porque as mulheres não o desejavam. “Ninguém nasce gay”. Foi o estratagema que adoptou para deixar de ser InCel.

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Mas eu não condeno

Outros estratagemas foram elencados pelos InCels, da remoção do direito feminino a escolher um parceiro até um sistema análogo à social-democracia que partilhe as mulheres entre aqueles que não as têm. Não se trata de uma agenda, apenas um conjunto desagregado de ideias postadas entre lamúrios e muita tristeza, solidão. Nem são apenas eles: Um amigo que já fez mais de 100 lays advoga o método SD, abdicando ele próprio de muitas noites bem passadas em nome da igualdade, da justiça e da estabilidade social. De alguma forma foi esse o papel da Esquerda moderada, prosseguir os objectivos da revolução retirando-lhe a violência. Nem os objectivos dos InCels nem os InCels são violentos.

Mas aqueles que são – estes InCels – são de facto como terroristas, porque cometem actos terroristas. Porque inspiram terror. Entre os paralelismos face ao do terror islamita, além da incompreensão, encontramos tantos outros: A desorganização, a caracterização sociológica dos pertencentes – desenquadrados, alheados, atomizados – as estratégias de recrutamento, a dificuldade em seguir as redes, que apenas existem online, e um misticismo quasi-religioso em dias descrentes. Foi aí que Rodgers foi canonizado. Saint Elliot, há semelhança dos mártires nos primórdios do Cristianismo, morreu virgem. Morreu inocente.

Saint Elliot morreu inocente

Comecei por dizer que oiço extensamente todos os terroristas em vez de culpabilizar a incapacidade de integração, o capitalismo, o colonialismo… Qual fenómeno externo poderia culpabilizar pelo terrorismo InCel? A Hipergamia, claro. A Hipergamia mata. Matou quase vinte pessoas entre os dois casos explorados e matará muito mais. Matou Alek e Elliot, as suas primeiras vítimas, falecidos muito antes de pegarem nas armas ou ao volante do camião. O Profeta limitou-se a antever, com uma clarividência assustadora, os acontecimentos do século seguinte.

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O Profeta anteviu os acontecimentos do século seguinte

Conforme escutaram o sucedido nas notícias, questiono-me sobre quantas das colegas, das conhecidas, das raparigas que se cruzaram e ignoraram os mencionados não se questionaram se deviam ter prestado atenção, despendido um beijo nos lábios ou minutos de folia vaginiforme para evitar estes acontecimentos. Se o fizeram tantos milhares de vezes, por motivos tão fúteis, será que o fariam para salvar mais de vinte vidas? E se fossem apenas duas?

 

* Embora tenham sensivelmente a mesma idade, Nala é muitíssimo mais experiente do que Simba nos jogos da intimidade psicológica e física. Lembrem-se lá de outro filme para crianças onde um protagonista, masculino, se aproveite da inexperiência de uma fêmea para a seduzir.

** Há muitos anos li numa revista cor-de-rosa sobre quais as principais razões pelas quais as mulheres “cediam” sexo aos maridos onde a mais caricata era “convencê-lo a ir deixar o lixo ao contentor”. Não encontrei o registo. Se houvesse sido publicado hoje, o tipo seria preso por violação no casamento.

 

A hipergamia Mata (I)

O clube estava meio cheio, sobretudo de 25-anistas o que preencheu as modestas hipóteses de Tisserand. Muitas mini-saias, decotes curtos, em poucas palavras, carne-fresca. Vi os seus olhos arregalarem-se ao aproximar-se da pista de dança e saí para um burbon no bar. (…)

No ínicio parecia interessado numa morena de vinte e tantos, secretária provavelmente. Estava inclinado a aprovar a sua escollha. Por um lado não era rapariga de grande beleza e seria, seguramente, influenciável; os seus peitos, apesar de bem-dimensionados, já estavam descaídos e as suas nádegas flácidas; dentro de alguns anos, tudo isto a arrebataria. Por outro lado, havia algo ousado na sua tentativa frontal de encontrar um parceiro sexual (…) esta seria uma rapariga com preservativos na mala.  Durante alguns minutos, Tisserand dançou não longe dela, impulsionando os seus braços energeticamente na sua direcção, para indicar o entusiasmo que a música nele causava. Em duas ou três ocasiões até batia palmas ao ritmo do beat; mas a rapariga não parecia reparar nele, no mínimo. Beneficiando de uma pequena pausa entre discos, ele tomou e dirigiu-lhe algumas palavras. Ela virou-se, lançou-lhe um olhar desdenhoso e atravessou a pista de dança para fugir dele. Tudo estava a correr como planeado.

Uma rapariga, sentada na mesa perto da minha, sozinha. Era muito mais nova do que a Verónique, devia ter 17; Fora isso, era horrivelmente parecida. O seu vestido extremamente simples, amplo, não revelava os contornos do seu corpo – escassamente precisariam de tal. As suas ancas largas, firmes e suaves nádegas, a maleabilidade da sua cintura que conduziria as mãos em direcção a um par de amplos, redondos e suaves peitos; as mãos que descansavam confiantemente na cintura, expondo a nobre circularidade das ancas. (…) A cara, plena e cândida, expressando a sedução calma das mulheres naturais, confiantes da sua beleza. A serenidade calma da pilhagem jovial, ainda fresca, desejosa de tentar os seus membros num curto galope. A tranquilidade calma de Eva, apaixonada pela sua própria nudez, sabendo-se óbvia e eternamente desejável.

(…). Foi aqui que Tisserand escolheu regressar; ele estava a transpirar ligeiramente; ele falou comigo; eu acho que ele queria saber se eu pensava em tentar algo com a rapariga. Não respondi; Começava a sentir como que vomitando e tinha tesão; As coisas estavam num bom ponto de passagem. Disse “dá-me um momento” e atravessei a discoteca em direcção aos lavabos. Uma vez lá dentro, pus dois dedos na garganta, mas a quantidade de vomito provou-se fraca e desapontante. Depois masturbei-me com grande sucesso: Comecei a pensar na Verónique ao inicio, mas aí concentre-me em vaginas e foi o suficiente. A ejaculação veio em minutos; trouxe-me um sentimento de confiança e certeza. Ao regressar vi que Tisserand tinha iniciado uma conversa com a pseudo-Verónique; Ela fitava-o calma e sem desprezo.

Eu sabia que no fundo, esta jovem rapariga era uma maravilha; mas não importava, já me masturbara. Do ponto de vista amoroso, Verónique pertencia, como todos, a uma geração sacrificada. Ela fora certamente capaz de amar; ela desejava ainda o ser, posso-o garantir, mas já não é possível. Como fenómeno escasso, artificial e atrasado, o Amor pode apenas florescer sob certas condições mentais, raramente conjuntas, e totalmente opostas à liberdade moral que caracteriza a época moderna. Verónique conhecera demasiadas discotecas, demasiados Amantes; esse tipo de vida empobrece o ser humano, infringe por vezes danos sérios e quase sempre irreversíveis. O Amor como um tipo de inocência e como a capacidade para a ilusão, como a aptidão para cingir todo o outro sexo num único ser Amado, raramente resiste a um ano de imoralidade sexual e nunca a dois. Na realidade, as sucessivas experiências sexuais acumuladas durante a adolescência, minam e rapidamente destroem toda a possibilidade de projectar um intento emocional e romântico; progressivamente e, de facto, extremamente rápido, um torna-se tão capaz de Amar como um velho escória. Por isso leva, obviamente, a vida dum escória; No envelhecimento torna-se menos sedutor, logo, mais amargo. Torna-se invejoso dos jovens e por isso odeia-os. Condenado a tornar-se indestrutível, torna-se este amontoado de ódio ferveroso; depois morre e desaparece, como tudo desaparece. O que remanesce é o ressentimento e o repúdio, o enjoo e a antecipação da morte.

No Bar, negociei uma garrafa de bourbon com o bartender por 700 francos. Ao regressar esbarrei com um jovem de metro e oitenta. “Hey, qual é o teu problema?” disse num tom amigável; olhando para ele, respondi “o leite da simpatia humana”. Vi a minha cara no espelho, preenchida com um sorriso desagradável. O jovem abanou a cabeça em resignação; negociei atravessar a pista com a garrafa na mão; mesmo antes de chegar, fui de encontro à rapariga da caixa, e caí no chão. Ninguém me ajudou. Estava a ver pernas dos dançantes bambaleando-se na minha frente; quis ceifá-las com um machado. Os efeitos da luz eram de uma violência intolerável; Estava no inferno.

Um grupo de rapazes e raparigas estavam sentados na nossa mesa; provavelmente os colegas de turma da pseudo-Verónique. O Tisserand não desistira; apesar de começar a afastar-se, estava-se a deixar ser posto fora da conversa progressivamente à medida que se tornava demasiado óbvio, e quando um dos rapaz propôs comprar uma rodada no bar, já ele estava implicitamente excluído. Ainda assim fez um vago gesto de se levantar tentando apanhar o olhar da pseudo-Verónique; em vão. Pensando melhor, deixou-se cair no sofá, completamente embrenhado em si mesmo, nem reparara na minha presença; despejei outra bebida no copo.

A imobilidade de Tissrand foi mantida por um minuto ou assim; deu um súbito arranque, sem dúvida imputável àquilo que geralmente é chamado de “energia do desespero”. Erguendo-se abruptamente, passou por mim e alcançou a pista de dança; a sua face estava sorridente e determinada; estava mais feio do que nunca.

Sem hesitação, plantou-se diante de uma rapariga de quinze anos. Ela usava um vestido curto de um branco imaculado; a transpiração colara-o ao seu corpo e era bem visível que não usava nada por debaixo; as suas pequenas e redondas nádegas estavam moldadas com precisão perfeita; um podia claramente reconhecer as aureolas castanhas dos seus peitos, engrossados pela excitação; O DJ anunciara quinze minutos de oldies. Tisserand convidou-a para dançar; contra as expectativas, ela aceitou. Dos primeiros acordes de “Come on Everybody” senti que ele ia dar cabo de tudo. Ele abanava-se em torno da rapariga com brutalidade, dentes cerrados, um olhar vicioso; de cada vez que a puxava para si, tomava oportunidade para colocar as suas mãos nas nádegas dela. Assim que as últimas notas tocaram, a jovem pisgou-se para junto de um grupo de raparigas da sua idade. Tisserand permaneceu resolutamente no centro da pista de dança; ele estava-se a a babar. A rapariga apontava para ele enquanto falava com as suas comparsas; gargalhava enquanto olhava para ele. Neste momento a pseudo-Verónique regressa do bar com o seu grupo de amigos; estava numa conversa densa com um jovem rapaz preto, ou talvez meio-preto. Ele era ligeiramente mais velho do que ela; creio que podia ter uns 20. Eles vieram e sentaram-se na nossa mesa. Quando passaram acenei a mão ligeiramente na sua direcção. Ela olhou para mim surpreendida mas não reagiu.

Depois do segundo acto de Rock, o disc-jokey pôs um slow. Era Le Sud por Nino Ferrer, um excelente disco, tinha de o dizer. O mulato tocou no ombro da pseudó-Verónique ligeiramente; Eles chegaram a um acordo comum. Neste momento, Tisserand virou-se para ele. Abriu as mãos, abriu a boca, mas creio que não teve tempo para falar. O mulato amansou-o calmamente, com gentileza e, nalguns segundos, ambos se encontravam na pista de dança. Faziam um casal magnífico.

A pseudo-Verónique era alta, talvez um metro e setenta e cinco, mas ele era bem mais alto. Ela confiantemente pressionou o corpo contra o deste gajo. Tisserand sentou-se ao meu lado; tremia de cada membro. Olhava o casal, hipnotizado. Esperei um minuto ou mais; esta dança lenta, durou para sempre. Depois agarrei-o gentilmente pelo ombro, repetindo “Rafael” uma e outra vez.

– O que posso fazer?

– Vai bater uma punheta

– Reconheces que não tem solução?

– Claro. Não tem solução desde há muito tempo, desde o inicio. Tu, Rafael Tisserand, nunca representarás o sonho erótico de uma jovem rapariga. Tens de te resignar ao inevitável; tais coisas não são para ti. Já é demasiado tarde, de qualquer das formas. O fracasso sexual que conheces desde a tua adolescência, Rafael, a frustração que te persegue desde a idade de 13 anos, deixará uma marca indelével. Mesmo supondo que tu  venhas a ter mulheres no futuro – coisa de que francamente dúvido – isto não será o suficiente; nada será o suficiente. Serás sempre um órfão dos amores adolescentes que nunca conheceste. Em ti a ferida é demasiado profunda. Uma amargura atroz, irreversível, acabará preenchendo o teu coração. Para ti não há redempção nem salvação. Assim é. Ainda assim, não significa contudo, que toda a possibilidade de vingança esteja cerrada para ti. Estas mulheres que desejas tanto, podes possuí-las. Podes até possuir o que de mais precioso existe para elas. Sabes o que é o mais precioso para elas?

– A sua Beleza? sugeriu

– Não é a sua beleza, isso posso-te garantir. Tampouco é a sua vagina, ou o Amor pois todos esses desaparecem com a vida. E, daqui em diante, podes possuir a sua vida. Lança-te numa carreira de homicidio desta noite em diante; Acredita, meu amigo, é a única hipótese aberta para ti. Quando sentires estas mulheres tremendo na ponta da tua faca e implorando pelas suas jovens vidas, então aí serás o seu verdadeiro mestre; Só aí possuíras o seu corpo e alma. Talvez até consigas, antes de as sacrificares, obter vários favores suculentos da sua parte; Uma faca, Rafael, é um aliado poderoso.

Ele fitava longa e dolorosamente o casal que estava embrulhado enquanto torneavam a pista; Uma das mãos da pseudo-Verónique abraçava a cintura do mulato, a outra descansava no seu ombro. Suavemente, quase com timidez, disse-me

– Preferia matar o gajo.

Aí, soube que tinha ganho. Subitamente relaxei e enchi de novo os nossos copos.

– Pois bem, exclamei, do que estás à espera? Pois sim! Mata então o jovem preto! De qualquer das formas, eles vão sair juntos, as coisas parecem lineares. E tu tens de matar o tipo antes de conseguires qualquer coisa da miúda. Por acaso tenho uma faca no carro.

Eles de facto saíram dez minutos depois. Agarrei a garrafa, Tisserand seguiu-me docilmente. Cá fora, na noite, havia um aroma prazenteiro, quase quente. (…) Abri a frente do carro, tirei a faca do saco; A sua serrilha brilhava resplandecentemente com o luar.

Montaram numa Scooter. Ao meu lado, Tisserand tremia incessantemente. Conseguia sentir o fedor do seu esperma putrido a trepar pelo respectivo pau. Carregando nervosamente nos botões, ligou as luzes sem querer; A rapariga reparou. Decidiram sair, o nosso carro moveu-se ligeiramente atrás. “Onde irão dormir?”. “Provavelmente na casa da miúda, é uma coisa certa. Mas temos de os parar primeiro. Assim que regressarmos à estrada, batemos na Scooter. Ficarão atordoados e não terás problemas em dominar o gajo.” À luz dos farois, a rapariga podia ser vista a agarar a cintura do companheiro. Depois de uns minutos de silêncio recomecei “Podíamos sempre fazê-los despistar, só para jogar pelo seguro.” “Eles não parecem estar preocupados com nada” reparou Rafael numa voz sonhadora.

Subitamente, a scooter virou para a costa, em direcção ao mar. “Não era este o plano”. Disse ao Tisserand para abrandar; Mais adiante o casal estacionou e encaminharam-se para a praia. Ao primeiro vislumbre das dunas,compreendi melhor. Com uma maré alta que formava uma imensa curva, o mar extendia-se aos nossos pés; A luz da lua cheia brilhava ligeiramente sob a sua superficie. O casal dirigia-se a sul, para a beira da água. A temperatura do ar estava gradualmente mais prazenteira, anormalmente prazenteira; julgar-se-ia estarmos em Junho. Nestas condições, de certeza, compreendia: Fazer Amor ao lado do oceano, por debaixo do esplendor das estrelas, compreendia demasiado bem, era aquilo que eu teria feito caso estivesse no seu lugar.

Dei a faca ao Tisserand, ele saiu sem uma palavra. Regressei ao carro, suportando-me no capô, deixei-me escorregar para a areia. Beberiquei o burbon e depois regressei atrás do volante, conduzindo para o mar. Era arriscado mas o som do motor era apagado, imperceptível; a noite estava acolhedora, terna. Tive uma tentação terrível de guiar em direcção ao mar.

A ausência de Tisserand tornara-se prolongada. Quando regressou não disse uma palavra. Segurava a faca na sua mão; a lâmina brilhava suavemente; Não detectei manchas de sangue na sua superficie. Subitamente senti uma onda de tristeza. Finalmente falou.

– Quando cheguei, eles estavam deitados entre as dunas. Ele já tirara o seu vestido e soutien; Os seus peitos eram tão belos, tão redondos, no luar. Aí ela virou-o, foi para cima dele. Desabotoou-lhe as calças. Quando o começou a chupar eu não aguentei mais – silenciou-se. Eu esperei – Voltei para trás, caminhei entre as dunas. Podia tê-los morto aos dois; eles encontravam-se alheios a tudo e não sabiam que eu estava ali. Masturbei-me. Não tinha desejo de os matar; o sangue não muda nada.

– O sangue está em todo o lado

– Eu sei. Também há esperma por todo o lado. Neste momento já tive demasiado. Vou voltar para Paris.

Nem sugeriu que o acompanhasse. Fui adiante, caminhei em torno do mar. A garrafa de burbon estava quase vazia; Engoli o que restava. Quando regressei, a praia estava deserta. Nem ouvira o carro a arrancar.

Nunca mais voltaria a ver Tisserand de novo; morreu no carro, nessa noite, na viagem de regresso a Paris. Havia muito nevoeiro nos arredores de Angers; Ele conduzira à bruta, como sempre. O seu GTI 205 colidiu de frente com um camião; Morreu instantaneamente, mesmo antes da alvorada. No dia seguinte houve um feriado para celebrar o nascimento de Cristo; só três dias mais tarde a sua família ouviria sobre o sucedido. Já o enterro ocorrera, de acordo com o ritual, coisa que afastou a ideia de lamentos ou carpideiras. Algumas palavras se disseram sobre a tristeza de tal morte e a dificuldade de conduzir em pleno nevoeiro; as pessoas regressaram ao trabalho e foi isso.