Homofobia e outros mitos: Obrigado Mesquita Nunes

Não podemos assistir impávidos a uma invasão cultural – despótica, liquidatária, avassaladora – sem agir renitentemente em sentido inverso. Além de estarmos em paz com a nossa consciência e com os valores humanistas judaico-cristãos que nos norteiam, sabemos o que sabemos e o que não sabemos, sem medo de questionarmos, de fazer perguntas; E temos muitas perguntas

Quando conheci Mesquita Nunes, há uns dez anos, o tipo que mo apresentou acrescentou em surdina, enquanto o dirigente centrista se afastava do nosso redor: “Olha que o gajo é paneleiro”. Não era caso único na Direita Portuguesa, numa altura em que o seu partido era liderado por Paulo “Panisgas” Portas; É mais regra do que excepção e a sexualidade de AMN está adequada ao perfil político. Educado numa grande cidade, cosmopolita, bem falante e bem parecido, globalista e neoliberal, isto é, devotado a destruir o Estado – a última camada, depois da religião, do matrimónio e da família – que garante a protecção do individuo face ao mercado.

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Além de ser paneleiro, Mesquita Nunes quer destruir o Estado

A aceitação que achou junto desta trupe prova o que temos dito sobre a malta que se diz de Esquerda não querer saber dos pobres: as feministas taradas no encontro de chão comum com o neoliberal em temas da panascada, silenciam-se quando Mesquita Nunes investe para desregular o mercado mesmo quando essa desregulação implica destruir a vida das famílias Portuguesas. Os despejamentos em massa na baixa de Lisboa e Porto? Milhares de Portugueses expulsos dos bairros onde nasceram e os centros históricos citadinos das capitais Portuguesas descaracterizados? São culpa do Adolfo. Por isto, mais do que pela rabolhice, podemos dizer que Mesquita é um adversário directo d’A Távola Redonda.

Ao mesmo tempo estou-lhe grato. Profundamente agradecido. Porquê? Porque me ajudou a provar que a homofobia não existe.

Ontem

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Assinalou-se o dia mundial contra a homofobia, mas não provém de nenhum acontecimento traumático para a comunidade colorida. A lei 175 do código penal Prussiano previa a clausura dos homens que fornicassem com outros homens e os maricolas chalaceiros adaptaram a celebração ao 17-5. É importante sublinhar 3 aspectos da velha lei germânica para não nos enganarmos sobre as intenções do legislador.

Primeiro: Ao colocar os actos homossexuais no mesmo patamar que a bestialidade, o autor da lei não dirige a punição aos panilas mas sim a toda e qualquer classe de fornicador. Entende-se por fornicador aquele que conduz a sua energia sexual num propósito que não o de gerar família. Na Prússia, como em qualquer lugar do mundo até à industrialização ter tornado o labor displicente, a procriação era uma prioridade social e a pujança um bem escasso. Não se podia desperdiçar e por isso também se condenava a masturbação. Aqueles que se demonstrassem comportamentos antinómicos ao intuito de procriar, atentavam explicitamente contra o bem-estar presente e futuro da sociedade. Todas as culturas assim o determinaram. Podemos concordar que o fornecimento de descendência é um tributo adequado à comunidade que nos protege, cuida e acolhe ou podemos ser umas bestas egoístas e individualistas mais preocupados com o prazer pessoal do que com o meio que nos rodeia, mas temos de reconhecer que a lei condena todo o tipo de degenerados e não apenas dos maricones – Aliás, enquanto fornicadores profissionais, os PUA’s seriam igualmente perseguidos.

Segundo: Esta lei é inaplicável. Excepto por denúncia, numa época em que nem a gravação de vídeo ou imagem existia, era materialmente impossível demonstrar que fulcrano tinha a picha metida no rego de belcrano. É mesmo provável que nunca jagunço algum alguma vez tenha sido preso por causa da lei 175 e, se tiver sido, imaginem de que forma divertida gastariam os panões o seu tempo na choldra.

Terceiro: Esta lei perseguia os actos e não as pessoas. No limiar, dois homens que partilhassem uma devoção emocional e demonstrassem o mútuo apreço sob formas quais extraviassem a sodomia, não seriam incomodados. Um amigo gay confessou-me o ódio à palavra “homossexual” por não retractar o tipo de relação que mantinha com os parceiros e que, segundo ele, não se limitava ao coito. Mesmo descrendo no tema, a isenção da lei vai de encontro à mensagem propalada nos dias de hoje, de que os panucos nascem panucos. Na casa de Hohenzollern, o bundão assim nascido, seria um homem livre até levar na bunda.

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Na casa de Hohenzollern, o bundão é um homem livre até levar na bunda

Portanto, onde exactamente encontramos a homofobia? Não será à esquerda, sempre com a boca cheia de maricas – mesmo que nenhum Partido de Esquerda em Portugal integre um único paneleiro nos seus quadros dirigentes. Mas também não é à Direita, com Mesquita Nunes a obter resultados eleitorais respeitáveis numa autarquia do interior. Isto é: não só um tipo não é vexado, humilhado, perseguido, violentado nem agredido, como ainda por cima tem uma fatia de eleitorado potencialmente hostil (rural, conservador) a confiar-lhe os destinos da Covilhã.

Encontramos-la no passado? Duvido. Não podemos retractar como preconceito, o desprezo que uma comunidade em guerra sente para com os homens que investem a sua agressividade – um bem escasso – num propósito qual não seja o de lutar. Pelo contrário, nos momentos abonados e de paz, como hoje, os homossexuais foram endeusados como uma vanguarda esclarecida. Curiosamente os gay foram os primeiros machistas, com tanto desprezo pelas mulheres que nem as comiam. Na Grécia antiga, enquanto as classes trabalhadoras asseguravam a reprodução, a elite intelectual entregava-se à pederastia. Na sua cultura, essa mesma elite tinha condições sociais e económicas para louvar o ócio; já a classe baixa, materialmente incapaz de levar esse comportamento, praticava em antítese o negócio – a negação do ócio – para a condução do qual a reprodução era um elemento fundamental. Escusado será dizer que essa cultura não acabou bem.

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O futuro de uma civilização que pratica o ócio, o hedonismo e a homossexualidade

A palavra gay possui várias e discutíveis origens etimológicas. No século XVII chamavam depreciativamente gay aos “viciados no prazer e na dissipação”. Mulheres gay eram prostitutas, homens gay eram libertinos e casas gay eram putedos. A transição para a homossexualidade fez-se por associação: os heterossexuais honrados constituíam famílias portanto os únicos libertinos eram forçosamente homossexuais. Passariam, por essa razão, a ser gay e no século XX estabeleceu-se o sinónimo com um estilo de vida hedonista e desinibido.

Mas, perscrutando essas mesmas origens, também encontramos uma história da Raínha Vitória observando um grupo baitola. Gay – do francês ancestral gai – significava alegre, divertido ou exibicionista e a monarca terá assim chamado aos larilas por exibirem alegria e diversão nos seus modos (provavelmente, também por se exibirem).

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Calma, não é isto

O ponto fundamental do conto é que os homens cognominados não estavam numa sala da cadeia, amarrados num pelourinho, acorrentados numa via pública à espera da morte bárbara mas em liberdade e à vista de todos. Vitória governou no século XIX, quando o termo foi cunhado. Onde estava o preconceito?

Mas mesmo que ele tivesse havido – em tempos idos ou em zonas recônditas do globo –  recuso-me a granjear qualquer panegírico por actos cometidos antes da minha era. Tenho a mesma atitude que perante o colonialismo: estou-me a cagar. Até porque estes não se podem julgar descendentes dos homossexuais doutros tempos – os homossexuais não produzem descendência.

Heterofobia

Se a homossexualidade nunca foi vítima de preconceito, a heterossexualidade sempre o foi. Junto das elites ociosas e debochadas, ser heterossexual era ser enfadonho – desligado das artes e da cultura, da vida e do mundo. Os homossexuais eram necessariamente ricos, os heterossexuais eram putativamente pobres: Dedier Eribon comenta a falta de aceitação que o seu background acolhia na comunidade gay, forçando-o a mentir sobre a sua proveniência.

A legalização do casamento entre paneleiros foi uma antinomia na medida em que os seus apologistas medem a qualidade de um país pela sua taxa de divórcios: O casamento passa a ser salutar e libertador quando praticado entre homossexuais, castrador e disfuncional quando praticado entre heterossexuais. Quem tomou a RedPill sabe que o casamento é um instrumento regulador contra a hipergamia e por essa razão não se aplica às relações entre dois gajos.

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O casamento é um regulador da hipergamia

Os heterossexuais que obedecem à agenda promiscua gay e também são avessos ao casamento, ainda terão mais problemas. A cultura que ostracizava a leviandade doutras eras não se auto-anulou, apenas mudou de sujeito. Percebe-se que o cronista Alberto Gonçalves tenha denotado que “um pedacinho da história da humanidade” era “a história da repressão sexual, que antes de ser um produto das religiões é um produto da natureza humana. Mesmo sem a crença no divino, o homem – e a mulher, acrescente-se para fugir a equívocos – haveria sempre de arranjar maneira de crer no gozo em proibir o gozo alheio, na cama e onde calha”. Por isso, e ao contrário do que muitos afirmavam, “Não é a religião que tenta impedir-nos de comer sal ou bolachas. A vontade de limitar “excessos” paira por aí, à espera dos zelotas que a transformem na sua “causa”. O movimento #MeToo e as perseguições a Harvey Winstein se justificam por aí.

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Vejo este filme há quase trinta anos

 

O que retiramos daqui? Que a homofobia não existe. É mais um mito criado para enxovalhar os desgraçados que andam aí a tentar dormir com mulheres e, coisa louca, construir família. Mas encontrem-nos um homofobico para que o possamos condenar. Tragam-no a montado num unicórnio, na companhia de uma feminista mentalmente sã. Acho que dos três, acredito no unicórnio

 

13 comentários em “Homofobia e outros mitos: Obrigado Mesquita Nunes”

  1. “Mesquita Nunes investe para desregular o mercado mesmo quando essa desregulação implica destruir a vida das famílias Portuguesas.” – Este comentario não é digno de redpill…

  2. Myrddin, aqui tenho de discordar de ti. Porque raio é que as pessoas hão de ter direito a viver toda a vida quase de borla numa zona hipervalorizada da capital, só porque nasceram lá?

  3. A redpill de que o capitalismo liberal é o meio mais eficaz para destruir a sociedade tradicional e o veículo primordial do marxismo cultural (e admitido pelo próprio Marx) é outra que é difícil de engolir, sobretudo para a Direita moderna que andou tantos anos a lutar contra os comunistas.

    Olhar para a questão de um ponto de vista de direitos é a meu ver uma fundação insuficiente. Não é que as pessoas tenham o direito de viver toda a vida de borla por uma questão de imobilismo, mas de considerar se a enorme valorização e as suas causas são algo que desejamos. Obviamente se queremos viver numa cidade cosmopolita, ter eurovisões, websummits e outras paneleiragens, receber um enorme fluxo turístico constante e transformar a capital histórica num museu para inglês ver, então temos de desrgular o mercado. Mas eu recuso essa intenção.

    A longo prazo, a destruição dos bairros é apenas mais um passo na transformação das cidades em produtos de uma cultura consumista e sem qualquer valor redentivo. claro que isto não começou hoje. os marcos mais óbvios foram as expropriações do 25 de Abril e as ‘privatizações’ do 25 de Novembro que mudaram as propriedades de mãos, mas não as retornaram aos donos originais.

    O meu bisavô, que projectou um bairro histórico de Lisboa, viu tudo ser-lhe tirado para o Estado e depois gradualmente vendido a bancos, por exemplo, que naturalmente não tinham qualquer vontade ou disposição em manter o carácter do bairro.

    E o bairro em questão é um dos casos menos maus, porque muitas das famílias puderam recomprar as casas (o que é injusto, mas não resultou numa mudança drástica da situação). noutros a situação foi muito pior e está a resultar no que vemos hoje.

    Para se atenuar a situação depois criou-se o rent control. quando o problema original na realidade não existia. o meu bisavô tinha rendas baixas para as pessoas do bairro porque as conhecia e sabia que elas não podiam pagar mais (incluindo o meu outro bisavô). apesar de tudo, mantinha a situação. era uma questão de comunidade.

    Enfim, simplesmente não vejo a questão a preto e branco. e não acho que tendo em conta as enormes distorções criadas sejam resolvidas para melhor (no sentido comunitário) ao simplesmente se desregular o mercado, abrir as portas a qualquer tipo de investimento e transformar Lisboa numa cidade onde famílias de classe média não conseguem viver, e em vez disso ser uma cidade de hostels, airbnbs e feita para servir o turismo em vez dos portugueses.

    Já escrevi em mais detalhe sobre a questão do liberalismo ser o veículo do marxismo cultural e da desintegração social aqui:

    https://portugalintegral.wordpress.com/2017/05/25/o-liberalismo-do-presente-e-o-socialismo-do-futuro/
    https://portugalintegral.wordpress.com/2018/04/13/sorriso-de-raposa/
    https://portugalintegral.wordpress.com/2018/04/23/maio-de-68/
    https://portugalintegral.wordpress.com/2018/04/28/automatizar-a-alienacao-progresso-tecnologico-e-anti-globalismo/

    Ilo

  4. o meu comentário original não apareceu, felizmente tomei o hábito de os guardar antes de publicar.

    aqui está:

    A redpill de que o capitalismo liberal é o meio mais eficaz para destruir a sociedade tradicional e o veículo primordial do marxismo cultural (e admitido pelo próprio Marx) é outra que é difícil de engolir, sobretudo para a Direita moderna que andou tantos anos a lutar contra os comunistas.

    Olhar para a questão de um ponto de vista de direitos é a meu ver uma fundação insuficiente. Não é que as pessoas tenham o direito de viver toda a vida de borla por uma questão de imobilismo, mas de considerar se a enorme valorização e as suas causas são algo que desejamos. Obviamente se queremos viver numa cidade cosmopolita, ter eurovisões, websummits e outras paneleiragens, receber um enorme fluxo turístico constante e transformar a capital histórica num museu para inglês ver, então temos de desrgular o mercado. Mas eu recuso essa intenção.

    A longo prazo, a destruição dos bairros é apenas mais um passo na transformação das cidades em produtos de uma cultura consumista e sem qualquer valor redentivo. claro que isto não começou hoje. os marcos mais óbvios foram as expropriações do 25 de Abril e as ‘privatizações’ do 25 de Novembro que mudaram as propriedades de mãos, mas não as retornaram aos donos originais.

    O meu bisavô, que projectou um bairro histórico de Lisboa, viu tudo ser-lhe tirado para o Estado e depois gradualmente vendido a bancos, por exemplo, que naturalmente não tinham qualquer vontade ou disposição em manter o carácter do bairro.

    E o bairro em questão é um dos casos menos maus, porque muitas das famílias puderam recomprar as casas (o que é injusto, mas não resultou numa mudança drástica da situação). noutros a situação foi muito pior e está a resultar no que vemos hoje.

    Para se atenuar a situação depois criou-se o rent control. quando o problema original na realidade não existia. o meu bisavô tinha rendas baixas para as pessoas do bairro porque as conhecia e sabia que elas não podiam pagar mais (incluindo o meu outro bisavô). apesar de tudo, mantinha a situação. era uma questão de comunidade.

    Enfim, simplesmente não vejo a questão a preto e branco. e não acho que tendo em conta as enormes distorções criadas sejam resolvidas para melhor (no sentido comunitário) ao simplesmente se desregular o mercado, abrir as portas a qualquer tipo de investimento e transformar Lisboa numa cidade onde famílias de classe média não conseguem viver, e em vez disso ser uma cidade de hostels, airbnbs e feita para servir o turismo em vez dos portugueses.

    Já escrevi em mais detalhe sobre a questão do liberalismo ser o veículo do marxismo cultural e da desintegração social aqui:

    https://portugalintegral.wordpress.com/2017/05/25/o-liberalismo-do-presente-e-o-socialismo-do-futuro/
    https://portugalintegral.wordpress.com/2018/04/13/sorriso-de-raposa/
    https://portugalintegral.wordpress.com/2018/04/23/maio-de-68/
    https://portugalintegral.wordpress.com/2018/04/28/automatizar-a-alienacao-progresso-tecnologico-e-anti-globalismo/

    Ilo

  5. Esta conversa das rendas já chateia. Não há problema nenhum de rendas.

    Há rendas a subir em 3 ou 4 freguesias de Lisboa. Coincide que essas 3 ou 4 sejam as freguesias onde meninos do papá com acesso ao Bloco de esterco e a jornalistas (quando não, em muitos casos, dirigentes do esterco e jornalistas destacados) querem viver. Querem pagar 300€ numa casa de três assoalhadas no centro de Lisboa, renovada e a 50m da estação de Metro mais próxima.

    O senhorio? Esse explorador que se lixe, recebe uma renda menor que o valor do IMI e que se cale…

    A freguesia de Lisboa onde mais contratos de arrendamento foram feitos sob a lei AMN (Arroios) não é no centro e a média de renda é abaixo de 500€.

    Meus senhores, uma renda no centro de Londres no tipo de casa que esses meninos querem, quanto fica? Em percentagem do salário mínimo é certamente superior a Lisboa. O mesmo em qualquer grande cidade. As rendas subirem no centro de Lisboa quer apenas dizer que o rectângulo está, lentamente, a deixar de ser uma esterqueira. Mas não se preocupem, o Costa e sua pandilha estão a tratar da Venezualização.

  6. reparei agora que o comentário mais longo (que foi o primeiro, antes dos parabéns ao escriba do post) não chegou a ser publicado. talvez tenha ido parar à pasta de spam.

  7. Só encontrei os comentários à posteriori. Foram mesmo parar ao Spam! Desculpa a demora mas sou um bocado poh infoexcluído..

    Li os teus textos. Estão brilhantes. Tenho uma (ou duas) coisas para escrever sobre pobres e a sua aceitação do liberalismo cultural. Ou por outra, porque razão vejo tantos travecas da geração sub-23 nas discotecas das docas. Que não tem nada a ver com o comunismo, com as organizações que preservavam uma moralidade pré-anos 60 no outro lado da cortina de Ferro ou que expulsavam o camarada Fogaça na secção Portuguesa.

    Quanto à história das rendas, é muito mais complexa do que aquilo que se possa explicar em meia dúzia de linhas. Como diz um amigo meu, morador e proprietário num bairro tradicional (integrado na cidade desde o PDM 1848), “é uma faca de dois legumes”.

    Eu percebo o lado dos senhorios. Os que não recebiam rendas. Os que viam a sua propriedade degradar-se de ano para ano. Os que não tinham meios legais para se livrarem dos inquilinos devedores. Cuja boa vontade, era explorada por esses inquilinos. Que não eram inquilinos, eram ocupas.

    Mas há o outro lado da história que não vou ilustrar com um daqueles relatos difundidos ad nausean com um casal de velhinhos a partilhar caixas de cartão num alpendre em S.Vicente.

    Eu, como todos os camaradas de blog, frequentei as lides PUA. Do engate. O engate é a permuta de um bem escasso e como tal caracterizado por leis de oferta e procura.

    A determinada altura cruzei-me com uma rapariga Romena com excesso de peso e falta de auto-estima (e formação, dinheiro, vida social, estabilidade emocional e o que o valha). A rapariga entrou para um site de encontros online. Nesse site, os homens pagavam quase 100 paus por mês para poderem oferecer dinheiro às contrapartes femininas. As mulheres frequentavam-no à borla e recebiam dinheiro dos gajos.

    Apenas num par de meses, a rapariga saiu com dois homens +40, daqueles fortes e bem-parecidos que combinam profissões de elevado status com charme e boa aparência. Ela ainda nem tinha acabado o liceu. Um dos gajos tinha uma filha pequena e era casado; o outro, veio da florida só para sair com ela.

    Ambos a levaram a restaurantes na sua vila onde ela nunca tinha entrado. Ambos lhe falaram de realidades que ela não conhecia. Ambos se aperceberam da incapacidade de achar pontos em comum (conforto) e apostaram em compensar essa falta de empatia com demonstrações inapropriadas de valor (atracção). Ambos tentaram ter mais intimidade. Ambos falharam.

    Conforme regressava para casa, depois de beijar um homem (o primeiro) com mais do dobro da sua idade, esta rapariga viu-se a braços com um problema. Apercebeu-se que nenhum congénere conseguiria igualar a experiência que ela acabara de atravessar. Os colegas do liceu, os vizinhos do bairro pobre onde vive, não podem levá-la àqueles restaurantes caros nem entretê-la com a mundividência dos cavalheiros mencionados. Cavalheiros que aceitam providenciar-lhe este nível de validação por um par de chochos ou menos, sem exigir-lhe que perca peso ou adquira outras competências (mais formação ou experiência de vida). Eles subiram o valor dela além das possibilidades da maioria dos candidatos, expulsando-os do mercado.

    Não vejo qualquer justiça na situação explanada. Nem mérito. Mérito existiria se a rapariga se ajeitasse, perdesse peso ou se tornasse mais interessante ; mérito têm as obras e os arranjos nos imóveis através do esforço e do investimento. Infelizmente não foi a recuperação que aumentou o valor dos imóveis, foi a especulação mercantil; Não foi o melhoramento pessoal da minha amiga que a tornou mais atraente para os homens, foi o desespero masculino e a abertura de canais mercantis através da internet e dos websites de encontros que servem apenas para este fim, o de desregular o mercado.

    Tudo isto gera uma bolha porque foi o mercado que elevou o valor do produto sem que o produto adquirisse valor.

    Como tenho passado os últimos dias a ler extensivamente sobre os muito propalados incels, veio-me à cabeça a presente analogia. Os dirigentes locais, os políticos e os cidadãos não se estão a confrontar com dilemas morais em torno da situação; Não lhes pedem interpretações filosófias sobre a justeza das ideias aqui confrontadas. Pedem-lhes soluções. Porque se estas soluções não forem encontradas, formar-se-á um maralhal sem abrigo cujos vencimentos não lhes dão acesso às residências sobre-preçadas. Se estas soluções não forem encontradas, formar-se-á um maralhal de incels, cujo SMV não lhes dá acesso às raparigas gordas sobbre-preçadas.

    O que lhes fazemos?

  8. óptimo comentário, merecia o seu próprio artigo.

    quanto ao que lhes fazer: pão e circo, mas sobretudo circo.

    aos incels oferece-se pornografia, cuddling services (ver o excelente mini-documentário The Love Industry in Japan da Vice) e eventualmente sex bots.

    à classe média oferece-se bairros dormitórios com internet e todo o entretenimento.

    duvido que, num caso ou no outro, gere uma revolta de peso. um caso ou outro isolado. lembro-me várias vezes do barricado na RTP, Manuel Subtil, e em como era um caso à parte.

    Ilo

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