À porta da loja

Na publicidade, na televisão, na rádio, nos cafés, nos bares, nas discos, nos bordéis, na internet nos telefones, na música, nas escolas, nas Universidades, nas ruas, nas casas, aqui, agora. Nunca se pensou tanto em sexo. Não é bom para ninguém. Não é bom para mim.

Eram dez da noite, segunda-feira, quando entrei num bar da zona habitacional. Não diria um bar, mas um café com horário prolongado. Não diria zona habitacional, quer dizer, era mesmo ao lado de casa. Nem eram bem dez, eram aí umas nove e pouco, hora de jantar para quem não janta cedo. Mas o ecrã central do espaço, geralmente votado à bola, revelava mulheres semi-nuas, corpos, no canal VH1, outrora exclusivo para música. Aumentando as horas aumentava a cadência de sensualidade, a decadência de moralidade, decrescia o gradiente de pudor, aumentava o furor, sem censor. No aproximar ao centro da cidade, seria pior.

O videoclip de que falo teria bolinha vermelha há quinze anos, estaria interditado há 30, seria alvo de uma comissão reguladora que aglomerasse Pais, educadores e responsáveis políticos. Os miúdos à minha volta, muitos menores, absorviam-no indiferentes. Estão habituados. Eu não estou: perco a concentração no ritmo da canção, sinto o desejo a fervilhar. Vai piorar? Oiço na letra, “estoy muy duro, si si”, mais pele, mais corpos, FREEZE, mais sexo. Mais pinturas tribais, mais músculos definidos, mais nádegas tremidas, mais crianças (crianças!) em movimentos pélvicos sensuais. Mais mulheres de pernas abertas, olhares orgásmicos, pernas, posses. Mais à frente oiço a verdadeira mentira da canção “Mi musica no discrimina a nadie”. Falso.

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Figura 1 – Discriminado por J Balvin, o autor de Mi Gente

Podemos imputar ao cantor colombiano as responsabilidades pela degradação moral da sociedade? Ou aos danos que infligiu à vida de todos os solitários, dos masturbadores compulsivos, dos frequentadores insistentes de serviços sexuais, os peregrinos à sacra-Tailândia apenas com bilhete de ida… para não falar das putas? Como pode não o ser se fomos saturados ad nausean pela propaganda obsessiva com o sexo e as temáticas sexuais. Não há como conduzir uma vida sadia sem permanecer em busca incessante pela próxima parceira, desejoso pela próxima penetração, ansioso pelo próximo coito, prometido pela publicidade do Tinder, recusado pelo swipe left. É essa propaganda a responsável pelo estado de hypersexualidade em que eu e todos os que me rodeiam se encontram. Endoidece-nos. Um psicologo Norte-americano, começou recentemente a estudar os danos psicológicos causados pelo grinder entre homens gay.  Como subsistirão emocionalmente quando perderem, por força do tempo, acesso à sua fonte primordial de estabilidade mental?

Vivemos na cultura mais sexualizada da história e também a mais infeliz. A forma como interpretamos o sexo –  simultânea e paradoxalmente, como a expressão mais profunda da personalidade, e como um divertimento inconsequente – Está muito para além da nossa natureza. De excessiva, transbordante, a minha líbido assemelha-se anómala, como que hetero-imposta por forças exógenas, obscuras. E se da nossa natureza fosse, solucionar-se-ia com a monogamia, brutalmente discriminada em terras do burgo  sobretudo entre as mulheres (It takes a village to keep a woman monogamous). Percorri a árvore genealógica da família por cinco séculos e encontrei não mais do que junções profícuas, duradoras, funcionais e jovens (quem, ainda jovens, procriavam). As pessoas costumavam casar e prosseguir as suas vidas, em vez de permanecerem eternamente neste estádio degradante de pós-adolescência, na senda, à espera que a sorte mude na próxima noite ou na próxima mensagem. Um familiar por afinidade, mantém três namoradas aos 58 anos. Será feito ou fracasso?

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Figura 2 – A forma como interpretamos o sexo tem consequências directas na demografia e na sociedade

Três rapazes juntam-se em casa de um quarto, 25, 26 e 27 anos, licenciados com notas brilhantes, mas também com um bom currículo em boémia, actividades académicas, associações e palanques. Habituados aos últimos, a discursar, a colocar a voz e as ideias no coração das multidões, junta os rapazes a particularidade de serem oradores exímios. A conversa adensa-se e com os copos em cima, chega-se à hora da verdade: Inversamente proporcional à destreza oratória, a experiência com mulheres é tão escassa, que quando um dos visados declara ter, em toda a vida, malhado cinco (CINCO?!), os amigos acusam-no de estar a exagerar o número (por cinco). O mais ousado do trio teria a sua quarta desposa nessa mesma noite, e a situação global deixou-me na dúvida sobre a quais expedientes recorreriam os rapazes dentro de quinze ou vinte anos.

O desfasamento entre a minha experiência de vida e a dos amigos mencionados, parte apenas da quantidade de tempo que gastei na inglória demanda por calor húmido feminino. Na senda. Um esforço que investido de forma profícua e construtiva teria vertido em várias obras literárias publicadas e um par de doutoramentos. Foi inútil? Não sei. Na escola PUA chamam-lhes – às tardes e noites em que deambulei transviado pelas ruelas do meu desconforto – “experiência” e “valor” incapazes de compreender que é na zona de conforto que se produz o portefólio material a que costumávamos valorizar. Sempre que conheço uma mulher, pergunto-me se nessa avaliação global e inultrapassável que faz da minha pessoa nos primeiros segundos, ela toma em consideração essa despesa improfícua, ou se não serviu mesmo para nada.

Nesta fase da minha vida, sinto que o custo por foda ultrapassou as minhas possibilidades. O mercado, determinado pelo número de pretendentes e tipologia de pretensões que cada individuo tem em órbita, põe-me no lado de baixo, incapaz de encontrar uma mulher congénere com menores possibilidades do que o investimento que tenho a fazer. É impossível achar raparigas que não me requeiram tempo, dinheiro ou compromissos que não estou disposto a oferecer.

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Figura 3 – Marie Antoinnete, meses antes de perder a cabeça

 

Houellebecq chamou-lhe a extensão do domínio da luta. À senda. Os amigos que citei, estão quais os camponeses derreados pelas políticas desastrosas de Louis XVI, as políticas do feminismo que condenaram milhões à fome; Políticas que elevam artificialmente o preço por foda, criando o excesso de procura e falta de oferta, que juntam a fome à falta de comer. Famélicos da terra diante de Marie Antoinette, ouvem José Alvaro Osório dizer-lhes Qu’ils mangent de la brioche; infelizmente, quase duas décadas desde que a senda começou, estão cansados de saber que para eles não haverão broches.

Existirão raparigas em situação idêntica mas são escassas. Sobretudo depois de anos de vida numa capital Europeia, com aplicações informáticas e smartphones à disposição. Mesmo essas, continuam a ser presenteadas com incontáveis alternativas à que envolve um relacionamento com os rapazes mencionados: Uma amiga polaca, gorda, que ganha o salário mínimo e fez um aborto recentemente, recebeu 350 matches no Tinder (e 48 super matches) aquando da sua primeira noite em Portugal. A solidão, no caso dela, será sempre uma escolha e não uma imposição.

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Figura 4 – “Game is gaining popularity because men see that disparity and want to increase their odds”

Porventura será essa disparidade o maior inimigo de quem frequenta as lides do Pick-up. Por compreendê-la bem – demasiado bem – sou mais solidário com os PUA’s do que o foi o nosso Roossh V. Não acho que seja o celibato involuntário, o avolumamento testicular, o isolamento compulsivo, sejam questiúncula de somenos. Pelo contrário, creio ser a maior epidemia – a par da queda da natalidade – a que o Ocidente esteve sujeito desde a gripe Espanhola. O problema é que todas as tentativas de o vencer são tentadas dentro do sistema: o nightgamer que aborda na discoteca para a qual pagou duas vezes mais do que a gaja para entrar, o daygamer que se resigna e anui à vox poppulli inventar o conceito de assédio em seu torno, o netgamer que  informa a gorda de que ela é interessante e desejável mesmo que esteja de pijama e sem maquilhagem no hotel de um canto degradado da cidade e até o putanheiro, disposto a gastar suor do seu trabalho, a prazentear uma vadia desconhecida. Todos contribuem para validar a narrativa de que as mulheres são seres superiores, encantados e únicos. Todos são culpados. E todos estão enganados.

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Figura 5 – O caralho

O pior é que muitos destes cavalheiros falham redondamente no seu propósito sedutor. As comunidades PUA’s estão preenchidas de tipos virgens e sozinhos ou escassamente acompanhados quem, a cada dia que passam, estão mais longe dos seus intentos. Na noite, na net, nos cafés, estão a lutar uma guerra e a perdê-la. São os combatentes alemães no cerco de Leninegrado. Perecendo gaseados nas trincheiras francesas, a caminho de Abbeville onde os inimigos se banqueteiam despreocupados. Bombardeados com a percepção de insuficiência a que o celibato involuntário incute. A percepção de que toda a gente o tem excepto nós.

Estamos entrincheirados na nossa própria solidão, na soleira da festa para a qual não fomos convidados, à porta da loja de doces à qual nunca tivemos acesso. E para além da legião adversária, sabemos dos demais em manjares sumptuosos. Queremos-los. Vale a pena recordar como terminou Marie Antoinnette, depois do mesmo povo faminto se recusar a recusar forçar o acesso aos produtos de luxo que a corte real não partilhava. Em Doullens, já depois dos combates terrestres terminarem e prontos a assinar a paz, os homens que passaram quatro anos à fome não se coibiram em lançar uma bomba na cidade que nunca conseguiram invadir. Houve sempre um castigo para quem esfaimou o seu semelhante, no século XVIII e no século XX. Este século não será excepção

 

7 comentários em “À porta da loja”

  1. O castigo está bem de ver, a Islamizacao da Europa, e quem perde tudo? As mulheres!, aos homens basta a conversão, quando as mulheres se converterem, a alternativa é serem violadas ou mortas, perdem 500 anos de lutas pela liberdade, os homens vão lutar para manter a liberdade das mulheres? Não creio…

  2. Eu já tenho dito que, pelo comportamento libidinoso, falso, arrogante e sobretudo TRAIDOR, das mulheres, merecem que os homens estendam o tapete vermelho aos muçulmanos para fazerem disto outra vez a terra deles (que já foi, antes de uns arruaceiros auto-denominados portugueses terem corrido com eles à porrada).
    Nem mais um homem a morrer ou ficar estropiado a defender atrasadas mentais e traidoras.

  3. Excelente artigo.
    Na minha opinião vivemos numa era onde os mais adaptados (diga-se – mais atraentes) são os únicos a entrar na loja de doces.

  4. Não será preciso lutar para defender as mulheres da islamização porque elas não querem essa defesa.

    Olhe-se para manifestações em países da Europa Ocidental contra a entrada de “refugiados”. Maioria? Homens.

    Olhe-se para as multidões com cartazes lamechas a dizer “refugees welcome”. Maioria? Mulheres.

    As mulheres estão programadas biologicamente para priveligiar emoções. Isso faz delas rãs em água morna. O fogo está aceso, mas por enquanto a temperatura aguenta-se, por isso vamos todos ser amigos.

    Quando for preciso lutar, a maioria dos países europeus não terá população nativa em número suficiente para a vitória ser certa (7 para 1 dar-me-ia alguma segurança). Li que na Bélgica perto de 50% dos nascimentos já não são filhos de casais belgas (nativos europeus, não estou a falar de marroquinos com passaporte belga). Dentro de 15 anos ganhar uma guerra civil na Bélgica será 50-50.

    Para agravar tudo isto, o Europeu branco tem níveis de criminalidade bastante mais baixos (o que é bom) o que, em países onde o porte de arma é pouco menos que proibido, faz com que populações com pouca vantagem numérica e que nunca pegaram numa arma de fogo tenham que vir a defrontar inimigos que sentem a sua cultura como superior, têm um desejo de dominar a cultura local, e quase com 100% de certeza, têm mais acesso e treino de armas que os seus oponentes.

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