Correio da Manhã ou jornalismo

Tenho duas memórias de adolescente sobre o Correio da Manhã: uma revela-se nas férias de Verão, nas idas à praia em família, o meu pai sempre comprava uns jornais – A Bola e o Correio da Manhã – para ler enquanto se sentava na toalha, fechando-se sobre as pernas, criando ali uma bola de espaço vazio entre o tronco, as pernas e o jornal. No caminho até à praia éramos eu e a minha irmã mais nova que os líamos e as únicas coisas de que me lembro sobre o segundo são fotos de escolas onde se deram tiroteios ou desenhos assustadores a (muito) preto e branco e alguns tons de azul que destacam o medo de uma alma indefesa e o machado na mão da fera que a persegue. A outra memória que tenho é a dos meus pais me obrigarem a limpar a gaiola dos pássaros, tarefa essa que inclui mudar a folha de jornal no fundo da mesma. Entendam isto como quiserem.

Nas redes sociais – e na vida real, que é importante, é saudável – continuo a ouvir pessoal a falar imensamente mal desta empresa, tanto no seu formato escrito quanto no audiovisual, com a CMTV. Bom, hoje O Patriarca partilhou comigo esta notícia, que tinha em teoria um par de horas. Então decidi que seria um bom dia para reviver as minhas memórias de infância ou talvez mudar a minha opinião sobre este jornal. Além disso, sou humano e o título ligou vários triggers do meu lado animalesco.
O título efectivamente funcionou e fez-me quebrar um padrão que normalmente sigo – de ignorar uma boa parte dos textos que me enviam -: sexo, invasão, redes sociais, é uma óptima receita para ligar os instintos primitivos de sexo, de alerta, de velha cuscuvilheira e de validação. A partir daí, piora. Tanto o texto cheio de lugares comuns e psicologia de casa de banho, como o vídeo, com mentira.

A primeira coisa que reparei é que isto é só uma reciclagem de material. Quando o primeiro vídeo mencionado se tornou viral o ano passado foi notícia e não foi muito diferente desta, foi uma notícia em volta do sexo em WCs de sítios nocturnos e agora é o mesmo, vendo-se diferenças só no texto, que menciona outros locais públicos escolhidos por casais (ou turmas inteiras, não sabemos, os únicos vídeos que mostraram foram os da casa de banho) para terem aventuras sexuais arrojadas e arriscadas. Falando ainda desse primeiro vídeo, é aqui que mentem, porque eu lembro-me de o ter assistido no auge da sua fama e lembro-me que, contrariando o que dizem de que o casal não se parecia incomodar, a dada altura a miúda finalmente se apercebe que estão a ser gravados e atira-se à câmara e é aí que o filme acaba, provavelmente junto com a diversão de um dos grupos – ou o casal que treina para ter filhos, ou os parvos que tentam filmar o primeiro dos seus sucessos do mesmo tipo de filmes que vêm juntos com uma bolacha no centro da mesa. Sabendo isto, o argumento seguinte perde automaticamente a força; é óbvio que não mudaram de posição porque lhes favorece, ou para se verem as mamas dela ou a pila dele a fornicar aprazerosa ou orgulhosamente a parceira. Fizeram-no pura e simplesmente porque as pessoas cujas vidas sexuais não são aborrecidas assumem várias posições, para descansar alguns músculos, para terem um acesso diferente ao corpo do outro, para se ajeitarem um com o outro ou até mesmo ao espaço em que estão, que me parece muito ter sido esse o caso, não estão propriamente num quarto de motel com cama redonda e lençóis de cetim.

Há também o que já disse num parênteses acima que é a maior prova de que isto é material reciclado: como é que um dito jornalista faz uma reportagem sobre como actos sexuais em público acabam sendo filmados e despejados nas redes sociais sem mais exemplos desses videos que menciona, como cito: “no interior de discotecas ou em jardins abertos a todos, passando por praias, escolas, quartéis militares ou hospitais, há de tudo”? É que se estes actos, tanto os de atentado ao pudor como os de espionagem e de violação de privacidade acontecem e não passam nas minhas redes sociais, assegurava-me ver no que é que se basearam para esta notícia, que é uma das vantagens do apoio audiovisual. Se calhar confundiram trabalho com prazer, pesquisa jornalística com uma pesquisa de fantasias específicas para adultos que fizeram num período pós-laboral. E o final da notícia na CMTV é delicioso, é a prova que mostra como realmente isto não é um ataque ao Main: “Apesar destes dois vídeos terem sido filmados no mesmo espaço nocturno, a CMTV sabe que o mesmo tem acontecido noutros estabelecimentos”. Daqui, perdoem-me a assumpção, mas só posso concluir que se têm provas e não as expõem é porque a jornalista fala por experiência própria.

Depois é fácil: é só embelezar o resto com lugares comuns como as regras de publicação das redes sociais, que nós conhecemos melhor que as nossas mãos e encher o resto com valores morais e psicologia de cavar batatas “tinham o dever de não aceitar o caso, mas não foram capazes de o travar”. Não, o “público” não ficou especado porque moralmente deviam chamar o segurança e explicar-lhe que tinha de ir interromper o casal que estava na casa de banho a exprimir o amor que sentem um pelo outro ou a vontade de rasgar a carne. Mais provavelmente tiveram um disparo de adrenalina e ao verem os outros a quebrar regras e a foderem numa casa de banho sentiram êxtase no corpo e não foram capazes de processar isso. Terem ao lado deles mais duas ou três pessoas na mesma posição e não quererem demonstrar esses sentimentos fazem-nos gritar em tom de escárnio e de gozo. Muito provavelmente a primeira coisa que fizeram quando chegaram a casa foi jogarem-se ao prazer que tinham acumulado tensão desde a cena que filmaram duas horas antes na disco.

Este tipo de jornalismo, básico, mentiroso, manipulador, rasco, reciclado só vem destruir o nome de uma profissão inteira. Porque estas técnicas tendem a repetir-se, como nesta notícia, em que se fala na violação duma miúda alcoolizada quando o que eu vejo é a miúda só se levantar quando chegam ao local e não sair do lado do rapaz que estava com ela. Toda a situação se desenrola duma forma estranha, mas não aparenta em nada ser uma violação. E quem fala no Correio da Manhã, fala nas revistas cor de rosa, que desvendaram tudo sobre a bissexualidade do Salvador Sobral, o vencedor do Festival da Eurovisão, quando ele apenas disse numa entrevista que nem pertencia àquela revista que o amor bissexual é um amor muito bonito, pois não olha a sexos.

Isto são maus profissionais, como maus taxistas, como maus professores, como maus empregados de mesa, que dão mau nome a uma profissão que muitos sonham ter.
Este tipo de espectáculos eu costumo combatê-los ignorando-os, um truque que aprendi na série “The Simpsons”: como qualquer má publicidade, se a ignorares, ela acaba por sair do ar. Mas às vezes temos mesmo de falar e apontar o dedo ao que está mal para abrir os olhos aos que estão à nossa volta para que depois possamos ser mais a ignorar. Dar-lhes os seus 15 minutos de fama rápido, para depois lhes puxarmos o tapete, deixá-los cair no chão e esquecermo-nos deles aí mesmo.

4 opiniões sobre “Correio da Manhã ou jornalismo”

  1. “Porque estas técnicas tendem a repetir-se, como nesta notícia, em que se fala na violação duma miúda alcoolizada quando o que eu vejo é a miúda só se levantar quando chegam ao local e não sair do lado do rapaz que estava com ela. Toda a situação se desenrola duma forma estranha, mas não aparenta em nada ser uma violação”

    Importante notar que na polémica da gaja supostamente abusada no autocarro do porto, a rapariga nem sequer apresentou queixa…( tomara com o que ela estava a gozar/gostar).
    O mais engraçado aqui é que todo o escândalo foi levantado por mulheres feministas, que supostamente lutaram pela emancipação da mulher e pela liberdade sexual, porém quando uma rapariga faz um acto de exibicionismo vão para as ruas bradar violação por parte do homem, pois uma mulher não pode gostar de sexo…

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